Há
30 anos, produziu-se na Guiné-Bissau um momento literário de rara
inspiração. Sob a batuta de Mário Pinto de Andrade, intelectual angolano
que coordenava o Conselho Nacional de Cultura, catorze jovens aspirantes a
poeta reuniram alguma da sua lavra e aconteceu, a primeira colectânea de
poesia de um país emergente de uma longa luta de libertação nacional: —
Cinquenta poemas sob o título de “Mantenhas para quem Luta”.
Nesta plêiade de “escribas” figurava Tomás Soares Paquete, o Talass, com
três textos: “Retorno”, “Ao acaso… No mar…” e “A Soweto”. Cantos à terra
reencontrada, a África, preocupações sociais e políticas, estavam em
sintonia com os demais companheiros e com o próprio momento histórico que
então se vivia. Passaram-se três décadas eis que Tomás Paquete reaparece
com cem sonetos de vida e amor a que ele chama de “Estados de Alma”, um
livro que vai marcar a ruptura do poeta com o passado. Estamos perante
outro estilo literário e outro espaço temático.
Descortina-se por entre as palavras rimadas, eivadas de estética e
ternura, uma musa inspiradora à qual o autor também dedica muito dos
textos escritos num hiato de dois anos. Outros motivos vão aparecendo à
medida que a esteira de sentimentos se alarga e abrange outros espaços
físicos e geográficos. Ainda quando fala de lagos, rios e montanhas que
foi conhecendo por esse mundo fora, é o amor que sublima os cantos. Mas há
a destacar que mesmo longe, confrontado com cenários de rara beleza, ele
reclama a ausência da mulher que lhe “fez conhecer o amor” e questiona “De
que me serve o estreito de Malaca, /a beleza de Sumatra, /o sol as
praias/se não te posso sentir e ter-te agora, /neste mar de histórias de
piratas e areais/…
Mas nada coíbe ou limita o poeta. Vencido e convencido pelo amor
descoberto, vai mais longe, escancara os seus sentimentos e revela como
pôs termo ao jejum literário. Por ti voltei a sentir poesia. /A declamar
versos lindos, /deixar viver a euforia/ o formigar dos sentidos/…
O conjunto deste trabalho pelo vigor, vivacidade e forma de contar,
assemelha--se a uma crónica. Uma extensa e avassaladora crónica de amor.
Uma crónica que se vai recriando com vários títulos e apresentados sob a
forma de sonetos bem conseguidos que nem a fantasia e a melodia sempre
presentes, alteram o rumo. O rumo devidamente identificado a cada momento
sob a toada ritmada da paixão ardente. Um rumo que nunca se afasta do cais
onde deseja acostar e refinar …um amor forte, avassalador,/ … com
despedidas, reencontros, mesmo dor, / emails, sms de amor, o tudo sem
atritos/… Amores… / feitos de pérolas de chuva caídas em desertos,/ de
canções, que nem a uma deusa jamais embalaram.
Paquete, o Talass, inunda a escrita de amor. Está de regresso e auguramos
que mantenha este estado da alma, deixe espraiar a poesia por outras áreas
temáticas e convoque também outros personagens.
Mantenhas para quem ama!
Lisboa, 21 de Maio de 2007
António Soares Lopes Jr
(Tony Tcheka)